terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Infarto: o que fazer para se prevenir




Ele estava acima de qualquer suspeita imediata: aparentemente saudável, 45 anos, não fumante, longe da obesidade, sem problemas com hipertensão, colesterol elevado ou diabetes. Ainda assim o infarto do miocárdio veio, fulminante. Márcio seixas não sabia, mas a família do seu pai tinha um longo histórico de doenças cardiovasculares. Depois que o filho se foi, alguns anos depois o pai manifestou a doença inscrita em seus genes. Quando sofreu a parada ele atravessava um período especialmente turbulento na empresa de médio porte no setor de embalagens. A história dele coincide com um dado progressivamente identificado entre os especialistas no tratamento dos males cardíacos: a diminuição constante da faixa etária de vítimas do infarto vem ocorrendo nas últimas duas décadas, confirma o cardiologista José Antônio Ramires, professor titular  da Faculdade de Medicina da Universidade de são Paulo (FMUSP). Hoje, aproximadamente 40% dos pacientes de doenças coronárias que levam ao infarto não apresentam os chamados fatores clássicos de risco.

Novo perfil de risco

As mudanças, algumas delas sutis, no perfil de risco foram um dos temas discutidos durante o congresso anual da Sociedade Brasileira de Cardiologia do Estado de São Paulo (Socesp) realizado na capital paulista. As doenças cardiovasculares persistem como a primeira causa de morte do país (33% do total). Entre as causa do infarto em pacientes que fogem à faixa etária padrão de maior risco (entre 50 e 60 anos) e à lista tradicional de situações que aumentam as chances da doença, estão baixa dosagem do colesterol bom (HDL), o acúmulo de uma proteína chamada homocisteína , que forma placas precoces nas artérias, além do aumento da lipo-proteína Lp(a), que também tem um papel destacado no entupimento dos vasos.Esses fatores de risco podem podem ser verificados por meio de exames específicos, solicitados pelo médico, após análise clinica.

Mas, apesar de o infarto nas faixas etárias mais jovens ocorrer crescentemente, a mortalidade ainda é maior entre os mais velhos, pela gravidade dos problemas que tendem a apresentar, conforme afirma Ramires. entre os fatores tradicionais que aparecem mais destacadamente entre os jovens estão o fumo, a obesidade, a hipertensão e o diabetes, os dois últimos descontrolados, sem a adoção  do tratamento para controle dos índices de pressão e das taxas de glicemia no sangue. "Hoje não é raro atendermos infartos agudos do miocárdio na faixa entre os 20 e 30 anos", constata o médico. Outro dado apontado por ele é a abrangência das vítimas do infarto precoce, que não escolhe um perfil socioeconômico específico. "Antes se imaginava que ocorresse principalmente entre os que ganhavam mais, mas esse fenômeno é observado também entre as pessoas carentes. É o comportamento da sociedade como um todo, com as pessoas comendo de forma errada, engordando mais e ficando sedentária".

O cardiologista Edson Stefanini, diretor científico da Socesp e membro do quadro clínico da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e do Hospital Sírio-Libanês, Atribui a maior frequência de diagnóstico do infarto em faixas mais jovens à atenção que o tema ganhou nos últimos anos. "As pessoas estão atentas e, ao menor sintoma, procuram rapidamente os serviços hospitalares". Ele lista entre os fatores preponderantes a hereditariedade, baixos níveis do colesterol protetor (HDL) e tabagismo, aparecendo na sequência hipertensão, diabetes e obesidade. Relata ainda o atendimento crescente a jovens entre 25 e 30 anos que infartam após consumirem cocaína em excesso, especialmente na noite paulistana.

Elas estão vulneráveis

Um fenômeno apontado por Ramires e Stefanini é o da vulnerabilidade das mulheres. Estudo realizado no Instituto do Coração (Incor) entre as décadas de 1980 e 1990, com aproximadamente 11 mil pessoas atendidas, apontou uma inversão das estatísticas em relação ao sexo do pacientes. Antes, para cada grupo de 10 homens que infartavam ou eram submetidos à cirurgia de revascularização (para colocação de pontes ou stents, próteses metabólicas para desobstrução das artérias) havia uma mulher. Mais recentemente, porém, essa relação inverteu-se drasticamente, passando a ser de três homens para cada mulher com problema. "A mulher está atualmente mais predisposta ao estresse, fuma muito", diz Stefanini. Ao perder a proteção hormonal, na fase que precede a menopausa - entre 45 e 50 anos - ela se iguá-la ao homem em termos de risco para infarto e até o supera.


Independente da idade, é bom estar atento aos sintomas aparentemente comuns, mas que podem indicar uma ameaça de infarto. O problema é que, em 40% dos casos de doença coronária, a primeira manifestação é justamente o ataque cardíaco, com índice de mortalidade de 8%, segundo um estudo feito entre 1.600 infartados atendidos pelo Hospital do Coração. É por essa razão que se recomenda realizar os exames preventivos de rotina, anualmente, a partir dos 35 anos. Se houver casos familiares de colesterol elevado ou problemas cardiovasculares, os médicos recomendam avaliações periódicas a partir dos 20 anos. A medição dos níveis de colesterol e outras partículas no sangue visa identificar a formação precoce de depósitos de gordura nas artérias, que podem se tornar ao longo de muitos anos.

Poluição: um agravante



Durante o congresso da Socesp, um dos trabalhos que chamaram a atenção foi apresentado pelo professor de Patologia da FMUSP, Paulo Saldiva, sobre a correlação entre a poluição e o aumento do risco para doenças cardiovasculares. Na cidade de São Paulo, por exemplo, respirar o ar poluído equivale a fumar dois cigarros por dia. Para quem fuma não faz tanta diferença, mas, para o não fumante, cria condições para o desenvolvimento de várias doenças, entre elas a do coração. "Todo material particulado agride principalmente o sistema respiratório e cardiovascular, e temos um aumento da incidência de problemas do coração, especialmente infarto e angina", detalha. Os estudos feito nos laboratórios da USP indicam, da mesma forma que pesquisas semelhantes nos Estados Unidos, que numa cidade de ar poluído, como São Paulo, o risco de infarto cresça 75% se comparado com uma cidade de ar limpo.Esse índice, multiplicado por 16 milhões de habitantes, acaba representando centenas de mortes que poderiam ser evitadas. E há ainda o estresse causado pela lentidão do tráfego: as chances de ocorrer um infarto em meio a um congestionamento crescem em duas vezes e meia.

Fator estresse
Estresse, no infarto, atua como um gatilho, um desencadeante. "Se a pessoa tem predisposição, a instabilidade emocional vai contribuir, sem dúvida", diz Stefanini. Pessoas com perfil perfeccionista, muito exigentes consigo mesma e com os outros, sofrem mais os efeitos deletérios (que destrói, danifica).Sobre estresse, o organismo libera uma descarga constante de adrenalina, noradrenalina e cortisol. Com o passar do tempo, esses hormônios causam pequenas lesões na parede do vaso sanguíneo, criando um ambiente propício para o surgimento da placa de gordura (arteriosclerose), que entope as artérias e provoca o infarto do miocárdio. As chances de o ataque cardíaco ocorrer mais precocemente aumentam quando já há gordura acumulada no vaso.



Há cerca de 5 anos, o Interheart, estudo realizado em vários países sobre os fatores de risco para doenças cardíacas, constatou que o estresse emocional pode ser mais perigoso que o diabetes. publicado na revista científica The Lancet a pesquisa analisou o impacto das adversidades e preocupações na vida de mais de 11 mil pessoas que sofreram infarto e comparou com os  resultados de 13 mil sem a doença. O cardiologista José Antônio Ramires explica como esse gatilho aciona um efeito cascata que repercute na esfera cardáica. "O estresse tem um papel extremamente importante porque resulta em distúrbios emocionais que podem afetar todos os demais fatores de risco. A pessoa pode deprimir, e a baixa auto-estima resultar em descuidos com a forma física, a alimentação e o tratamento de doenças que ela porventura apresente. Também vai fumar mais e ter tendência à obesidade". Ou seja, um coquetel amplificado de risco.

O que é o infarto

É uma lesão no músculo cardíaco pela obstrução da artéria coronária, responsável pela irrigação do coração. Quando uma ou mais artérias ficam obstruídas por um coágulo ou trombo ( que diminuem em 40% a passagem de sangue), parte do músculo cardíaco deixa de receber nutrientes. Essa privação mata os tecidos da região atingida. Quanto maior a artéria bloqueada, maior a área afetada. A doença arterial coronária pode causar uma angina (dor no peito) ou o infarto, obrigando a desobstrução para evitar a morte.







Como se prevenir

  • Alimentação rica em vegetais e pobre em gorduras animais
  • Exercícios 3 a 4 vezes por semana
  • Peso sob controle
  • Exames periódicos (avaliação clínica, eletrocardiograma, hemograma, colesterol total e frações, triglicérides, glicose e teste de esforço)
Sintomas
  • Dor ou forte pressão no peito
  • Dor no peito que pode se estender para o braço esquerdo (ou os dois)
  • Dor abdominal
  • Suor
  • Palidez
  • Falta de ar
  • Perda de consciência
  • Náuseas e vômitos
Fatores de risco
  • Histórico familiar de doença coronária
  • Idade (principalmente após os 50 anos)
  • Colesterol e triglicérides elevados
  • Hipertensão
  • Obesidade
  • Diabetes
  • Fumo
  • Estresse
  • Sedentarismo
Ação e reação
A receita é simples: na medida em que você controla alguns fatores de riscos e previne certas doenças, aumentam as chances de evitar um infarto do miocárdio. Confira a proporção:
  1. Normalizar o perfil lipídico (aumentando o colesterol bom, HDL, e diminuindo o colesterol ruim, LDL) -   50%
  2. Prevenir a hipertensão e normalizar os níveis de pressão arterial -   18%
  3. Prevenir e tratar a obesidade abdominal -   20%
  4. Prevenir e tratar o diabetes -   20%
  5. Prevenir e controlar o estresse e a depressão -   20%
  6. Consumir diariamente frutas e legumes -   20%
  7. Praticar exercícios físicos -   20%
Quando o transplante é inevitável
Há situações clínica em que o comprometimento do músculo cardíaco é tão intenso que não basta reconstituir a circulação de sangue por meios de pontes ou próteses. Quando se instala a insuficiência cardíaca, significa que o coração do doente tornou-se incapaz de bombear sangue em quantidade suficiente para o corpo, diminuindo o fluxo do sangue ao cérebro, rins e ao próprio coração, além de outros órgãos e tecidos. Nesses casos, os pacientes são sérios candidatos ao transplante cardíaco.

O número de transplante cardíacos no Brasil tem caído nos últimos anos. Em 2004, foram realizados 204 procedimentos, enquanto que em 2007 foram 136 cirurgias realizadas. É muito pouco se considerarmos o país como um todo e o número crescentes de pacientes. Há carência de doadores por falta de campanhas sistemáticas de conscientização e sérios problemas de infra-estruturas. Um músculo cardíaco viável precisa ser transplantado no prazo máximo de 4 horas após ser retirado do doador com morte cerebral confirmada. Em consequência dessa situação, 30% dos pacientes morrem, todos os anos, na fila de espera do transplante de coração. São todos portadores de cardiopatias terminais, com falência do músculo, que evolui para a insuficiência cardíaca e para o óbito, se não receberem um novo órgão. 

Com as técnicas cirúrgicas atualmente disponíveis e os medicamentos imunossupressores - que inibem a rejeição do sistema imune do receptor  ao órgão doador - os transplantes permitem sobrevida a 85% dos pacientes operados no primeiro ano pós- cirurgia e de 75% após cinco anos. De acordo com o Dr. Nelson Rodrigues Branco, "o transplante cardíaco tornou-se uma terapêutica bastante eficaz, capaz de prolongar a vida de maneira satisfatória, desde que haja órgão disponíveis".

Não deixe de assistir a este infográfico: como se faz o transplante de coração?

Fonte: por Stella Galvão/VivaSaúde

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